Poemas

De O respirante (2006)


O respirante (2006)


1.

O ar ácido aspirado e tocado,
nuvem no rosto, experimento
de outra forma de respirar o tempo,
a piscina até a borda
sufocando de limpidez
acima da linha do pescoço -
o sólido em dois estágios,
o da terra e o do vapor espesso

Se o ar ácido vem direto dos pulmões,
vapor expirado e aspirado,
como se a casa que habita
brotasse de dentro do habitante,
o respirante deve ajustar
a linha do horizonte
à linha do pescoço,
um pouco acima da sufocação
que o consome

09/04/2004


2.

Os trinta centímetros do hálito
são o necessário para a vida
prosperar,
o espaço de órbitas concêntricas

Solo cultivado
com seu próprio adubo,
território fluido
que forma um escudo diante do rosto,
um duplo da face que se molda
em máscara aérea

O homem que respira
mantém a armadura
(a máscara mortuária
é a última variante)
mesmo mudando de território,
na nova direção do nariz
o mesmo filtro de sulcos e poros
a mesma forma de ligar 
as esferas do oxigênio
na estratosfera que o sufoca


3.

O respirante está no talo
reduzido ao redemoinho
de nuvens em miniatura,
girando no ritmo
de sua máquina de metáforas

O respirante está no talo
seu osso central
no eixo do temporal
que devasta a área respirável

Antes, o vento soprava contínuo
num fluxo de silêncio renovado,
agora cada sopro cava um buraco
na área do vivido, na área arável

A máquina de metáforas,
girândola ou geringonça,
adiciona um ruído
à tempestade de vento,
que se contrai e se expande
no ritmo do respirante

10/04 - 11/04


4.

A asfixia vem do alto
não de tornado ou ciclone
(o tempo está calmo, polido
na superfície)
apenas o feixe de moléculas acelerado
o giratório cone de vento
suspenso
em cima do nariz da casa
- e lá embaixo, última escala do coração,
o habitante no bico do cone,
o eu afunilando o fluxo
de imagens

As nuvens muito finas
não filtram a luz que vem de cima,
a montanha branca no horizonte
é um vapor escasso

O respirante consulta seu barômetro
e o que ele mede é a pressão interna,
a elasticidade do oxigênio
em seu sangue
Ele tem de extrair o mínimo do máximo,
e o máximo do mínimo
Ele respira por todos os poros,
como as árvores
Meu sistema respiratório
começa nas nuvens e termina
nas raízes, ele pensa,
como um Cesário Verde redivivo

02/2005


5.

O respirante conduz 
o seu balão de oxigênio,
o seu invólucro de chamas,
o verbo tridimensional
para a reposição de ar

E essa ração escassa
(o vapor já se dissolveu
e o céu está claro)
faz dele uma coluna de fumo,
um cilindro de gases
destacado do horizonte

Todos os sinais que ele emite
- a evolução dos músculos faciais -
respondem à consciência 
de sua existência de respirante,
o mundo fendido 
e transformado, e não como era antes

02/2005 


6.

O respirante aspira partes de si mesmo,
partículas do eu suspensas na atmosfera
que ele recolhe, uma a uma,
no seu ser composto

O ar é a última fronteira
a terra não cercada
o galope ainda não medido
a ilha não devastada pelos clãs
o oeste a oeste de seu alcance

No consumo diário
de si mesmo,
na cisão do eu e da fronteira,
a liberdade aspirada
vem de fora
à beira do eu que respira

Não há greve de ar 
Como há greve de fome:
o respirante não tem
liberdade em estoque

03/2005


7.

A liberdade do pescoço
é do tamanho do espaço –
o mar torcido no seu colo
não é maior que ela

O pescoço não tem direção
como um tronco ou um míssil –
ele apenas desenrola
o carretel do horizonte
na torção do músculo
que sustenta a cabeça

Só quando o espaço, terra do pescoço,
concentra sua força num só feixe,
como um emplastro,
só aí o ar estrangula o pescoço
do respirante

19/03/2004


8.                 

Certos temas de Strauss, não suas valsas,
retêm o ouvinte
na casa em construção do ouvido
não dissonante, a arquitetura do
rangido, a percepção iniciante
difundida na escala,
aposentos em série
para o mesmo sonâmbulo
Estamos imersos na
infraestrutura da vida
elaborada, 
e o ouvinte não plana
- ele anda entre os timbres
e as falas dos instrumentos
Esse desejo do ouvinte
de planar acima dos escombros
do trabalho, da massa de vida
percutida –
como o respirante que absorve
o objeto da vida circundante,
e se crê o combustível de uma turbina,
voando acima de si mesmo
um vôo cambaleante 

28/03/2005


9.

Na vertigem,
o olhar e o ouvido se confundiam
e eu via em forma de labirinto
a vibração na ponta do osso
retorcido

Plano inclinado
folha de papel dobrada –
a linha do horizonte se dobrava
sobre mim, num contato quase táctil
entre o olhar e o percebido

Eu olhava em gamas
a folha de luz torcida
recurva como uma vértebra
a linha lunar da baía
reverberando na curva de minha orelha

Eu circulava entre os planos
de uma cidade vibratória, ecoante,
em que o olhar-ao-longe perde o sentido
- o horizonte enrodilhado no ouvido-
o sibilar e o grito igualmente distantes

23/08/2005


10.

Eu cavo a terra em busca de ar,
não o tártaro escuro
mas o vazio corporal
como aquele 
que a lava do Vesúvio moldou
em torno dos corpos desintegrados,
a vida antes da explosão.
No subterrâneo
respira-se o mineral,
pode-se tocar o que se respira.
Cavo não a lava do passado,
cavo a lama ressecada
em busca de bolsões de ar,
e nessa terra submersa
cavar é construir
- o traçado de um horizonte
no anti-tártaro vibrante:
o respirante ainda sufocado,
o vapor comprimido
no cilindro de barro
escapa no ar livre,
e no céu se forma
uma nuvem respirada

03/10/2005


11.

Estamos todos mortos
se a vida do mar é essa mistura
de sódio e iodo
e projeta na narina
não a onda de tempo e de dor
mas as imagens alternantes 
de um mundo branco
e de um mundo roxo
vivendo à frente do rosto
do respirante

A umidade da mente
é de outro tipo,
seccionada no ventre,
o odor de ontem é o da carcaça
apodrecendo

A guirlanda de sargaço
bóia no sal e na salsugem,
o iodo e o sódio os ingredientes da atmosfera,
a textura e o sabor,
um ou outro dando o tom dominante,
intermitentes

O respirante sabe que está morto
se parar à espera do sódio
se sufocar à espera do iodo

Mas sua mente é o mundo mais essa
espera, essa decalagem de tempo

Logo à frente do seu rosto
ele está morto,
mas esse é seu alimento 

01/11/2005




De Vendedores de Sono (1999)


Vendedores de Sono (1999)


Gaviões embalsamados

O dedo - sensor da memória -
desenha no espaço
um móbile feito
da mais intrincada gama
de ‘impurezas do branco’
- um travejamento sutil
sustenta essas imagens aéreas
(gaviões embalsamados)

Um outro lugar é sempre possível
para quem olha de lado
(na outra calçada os passantes atônitos)
- mas essas imagens pensáveis a partir do dedo
(como o intricado universo da Sistina
é pensável a partir do toque de dois dedos)
povoam a casa o muro o mar

03/97




Não é o homem que se move
mas o cenário,
pensou o poeta ainda criança
(quando na pista, prestes ao vôo,
ao lado o avião apenas rasteja,
o nosso é que parece andando)
Vistos desse ponto da sala
os móveis parecem inertes
como só aviões num hangar –

sob uma sensação de dança
(e a dança é uma forma de vôo)
que redesenha toda a sala
com o bico dos sapatos
(mas sem nenhuma escala audível
ou ruído de lábios na memória)
Sempre pensarei o cenário
como pensava o poeta criança?

06/97


O puro é absurdo

A água em estado puro
não seria degustável

(pares de hidrogênio
e o oxigênio solitário)
sem o sabor da natureza
que a polui nos veios, potável
O ouro em estado puro
perderia sua aura amarela
(as impurezas da aura)
cortada a juba
que dá o seu império
O puro é absurdo
Reduzida a seu minério
a música cristaliza
no pavilhão
Esse teu gesto
(lavrado na matéria bruta)
restaura o absurdo


Um mundo a mais

Acreditar menos é menos mundo?
Se a parte do amor se perde,
é mundo a menos;
se passo um traço sobre o que não creio
(como um deus ocioso que descrê 
do que criou),
o mundo é apagado além da linha?
Não o uso da crença, mas o desuso
da descrença aumenta a náusea
- um depósito de dias perdidos
Se corto em dois um triângulo
e dispenso o escaleno por descrença,
é geometria a mais e não a menos


Trópicos na mente

Mentes tropicais pensam com os poros?
Se Klee vivesse aqui
o azul seria ferrugem do amarelo?
Se Cézanne vivesse aqui
ele arco-irisaria suas paisagens
com outra pele?

Nesse mangue nessa restinga
ossos e pulso
os únicos cartógrafos
Sub-produtos da luz:
- o mar, incandescência líquida
do acelerador de partículas
das ondas de luz
- paralelo à linha de espuma
o verde gangrenado pelo sol
- a carne do homem
mastigada salivada e cuspida
na moenda desse falso ouro
(não o açúcar, outra moeda)
homens chupados
bagaço da luz

Nestes trópicos
condenado a repetir
os dois Cabrais
- o descobridor e o poeta -
que vêem o que não pensam
e pensam o que vêem
até os ossos da paisagem

Porto Seguro, 07/07/95


Espiral

Persigo 
o sexo da cor vermelha

Persigo em espiral
o que a boca tenta decifrar
com as papilas cegas
(na rua, tentam me vender tempo
tempo embalado para viagem)
e no céu da boca espoca
a polpa da cor vermelha
- no meio das contorsões da língua -
para espanto da legião
de comedores de morango

01/97


Sub tegmini fagi

O chifre põe aspas no ‘boi’
nós pomos aspas ao léu
(entre as cinzas da fogueira)
na ‘coruja’, no ‘gavião’, na ‘concha’.   
Sub tegmini fagi
o poeta trabalha a mente
entre as penas e o vôo.
O arsenal de conchas disparadas na praia
tem o silêncio de cosa mentale.
Paisagem é coisa pela janela.
Mas a cinza depositada na fogueira
- arquitetura sem colunas –
é fogo pensado em mim ou nela? 


Vendedores de Sono

Esses homens levam paisagens dobradas
nos ombros
- redes com estampas variadas
como o sono dos possíveis compradores

O torpor das redes anestesia tempo 
e movimento;
eles vendem morfina 
já inoculada nos músculos
dos ombros
(uma dezena de redes carregadas)

Não penso nesses músculos adormecidos
mas no sono que eles vendem;
sono e torpor têm grande oferta
mas não esse sono uterino
dos vendedores de rede

A tecnologia das redes:
sob essa trama visível (mortalha)
dançam casuais as partículas 
do sono
perfeitamente adaptáveis à consciência
de cada consumidor
(como a forma da rede se amolda
à flexível coluna de cada um)

Esses homens levam paisagens dobradas
nos ombros
e olham indiferentes as cidades estranhas
Os possíveis compradores já estão todos
dormindo nas redes
(amortalhados)




De Margem Móvel (1995)


Margem Móvel (1995)


Essa rosa é vermelha, mesmo no escuro.

Essa rosa é vermelha, mesmo no escuro. 
A sensação do sangue da cor
perde seu halo nítido.
Uma infecção na noite
como lembrança da nitidez.
O dia é a forma – a sensação é o lugar
que sobrevive na noite.
Colher o vermelho do jardim escuro:
impossível – impossível colher a sensação,
nódoa na rosa.


Três nomes: nudez- luz-nitidez

O homem a tudo denomina humano.
Assim esta nudez,
matéria indeterminável,
chama meus dedos.
Dedos cegos na luz que escorre
nitidez que lentamente se desprende
como cascas, crostas que se desfazem
ante os olhos   


O mundo todo está forrado

O mundo todo está forrado
- não apenas no teto
Mas de todos os lados.
Dizer é como arranhar...

Se é de seda, se é ferro,
Trata-se de uma mesma película
Que se cola a tudo que temos.
Que significa tocar?

Ganhar o que perdemos
Reduzir o nosso tato
Ou então apenas ter mãos.
Tudo a dizer, nada a ocupar...


A superfície mais crispada não é a do mar

A superfície mais crispada não é a do mar
quando o vento a excita.
A fonte de terrível crispação
(mão que busca um gesto)
é estar nítido:
como um objeto numa tela
mas vibrando as linhas de sua nitidez
como uma móvel imagem humana 


ó rigor da falsa primavera! 

ó rigor da falsa primavera!
meu pensamento não é colher 
teu símbolo, ídolo incorpóreo
Não roça a face de tua imagem
mas vem do interior de tua forma
como um desenho de linhas móveis
simultâneo a teu rigor

14/09/1987 


Queria um poema que fosse gente

Queria um poema que fosse gente
palpável em sua carne;
mas aqui
dois corpúsculos, dois sinais
- irrepetíveis, linguagem de sobrevivência
sem a saciedade da vida –
que se procuram, se desejam.
Sem se verem, um escuro invisível 
se adensa sob a forma de olhos

Florianópolis, março de 1990  


Algas na mente

Algas na mente
conchas na mesa
O cara disca como quem pizza
call-girls pós-graduadas em lingerie.
As conchas querem a Forma das formas
ou são espólios de moluscos?
Putas nobres deixaram as ruas
algas se esterilizam nas calçadas.
As conchas e as coxas das putas:
simetria sem paz.
Estrias imaginárias nas coxas das garotas
estrias ideais nas conchas.
As algas formam mosaicos
dissolventes para a mente
coagulantes para os olhos.


Um racionalista nos trópicos

1. Aceitemos que um coqueiro
Possa suportar diversas cabeças humanas.

Branco impraticável,
A areia da praia é dada.

O sol é irrelevante para o cálculo:
Essenciais são os milhares de poros de luz
Na paisagem.

2. Somando-se coqueiros e poros de luz
Obtêm-se cocos, olhos inchados
(são equivalentes olhos que vêem
E cocos vistos).

O branco da areia
Repetindo-se infinitamente
Impede o caos.

Essa paisagem-hipótese leva a ver o mar
Como caos abortado.

Paris, março de 1994.




De Pergaminho (1987)


Pergaminho (1987)

Campo minado, silêncio turvo, arte.   

Campo minado, silêncio turvo, arte.
A noite não se desmancha
para que eu a sinta menos.
Viverei sempre a habitar-te
qualquer que sejas tu.

Bate a última névoa da noite
como música envidraçada.
O escuro é outro corpo que parte.
Mas não consigo passar para um campo
onde tu não mores, qualquer que sejas tu.

Julho de 1984. 


A passagem do ônibus

Forma que se vai compondo
indo para a frente
estilhaços sem som
de uma seqüência,
o pensamento a fez fiel
por encostar-se nela?

Havia a expansão de uma certeza
correndo num céu liso?
a passagem dessa forma era sua própria unidade
e toda idéia arremetia contra ela
até cair.

Que unidade para um ônibus no tráfego
com uma janela para cada visão?
Havia uma forma que passava
num suplício baixo de som.
Um pensamento ali se recostava
por pressão.


Quadro móvel

Choque em todas as dimensões 
que ocupam o espaço.
O corpo como único condutor,
tudo nele responde
com uma reação-objeto,
exceto a mão
- que estremece 


Nunca criar, nunca criar 

Nunca criar, nunca criar
Esta música próxima
(símbolo que se fundiu)
tão sólida
que não se pode ouvi-la
Se não há campo para fluir,
como ela pode ter som?


Contração de estar vivo

Contração de estar vivo
músculos-janelas que se fecham
e põem sombra sobre um único local.
Que toldo isola
essa ruga retorcida
a ruga de estar vivo?
E se não é o único local,
que sombra é o sol por trás dele?


À sombra de meu carinho

À sombra do meu carinho 
não adormeça, leitor.
O verso não é carícia
da consciência do outro.

Não se aproxime da voz
que se destaca de mim
como se ela pudesse
confundir as nossas vidas.

O verso não nos irmana.
Maior do que a violência,
ele rasga paisagens.
Você, leitor, não se encubra.


Estação

Terei colhido as mesmas rosas,
que só são rosas porque as colhi.
As rosas que nós escolhemos
são as que têm a forma de nossas mãos
e que nascem quando as tocamos.
Terei sido colhido por rosas
que me incorporaram à sua natureza.


As paredes não têm limites

As paredes não têm limites. O céu azula a maior.
As nuvens ganham cor escura quando sobe
a fumaça da fogueira cuja lenha são meus dias. 
O incêndio oniapresenta-se.
Lago cego, o céu tem patinhos nadando no fogo azul,
área de me desfazer  em vermelho, parede teto chão.
Como último desejo, que minha boca sobreviva à rosa ígnea.


Contemplas o claro regato de tuas dores

Contemplas o claro regato de tuas dores
e mesmo aí não te encontras.
Quando te sentes, é com um silêncio equivalente
ao de quando estás sem sentir.
Teu sofrimento erguido em cacto
não fere o meio-tempo do eterno.

Se és paisagem que se sente,
é a paisagem que se sente, não tu.
Mas olha com todos os olhos 
possíveis, que ver te desloca,
e, de vazio, te tornas quase móvel.


Uma canção antiga (e ultrapassada)

Mas que te dói, meu amigo?
Não vejo mancha ou ferida
em tua pele esticada.
-- Estou doente da vida.

Mas quem diz vida diz nada.
É a palavra que pensa
ou o arrastar de teus olhos?
-- A vida é minha doença.

A vida é um deus abstrato
que veste túnicas várias.
Em que vestir tu te afetas?
-- A doença tem faces diárias.

Mas é doença sem pausa,
nunca tens sol que se sente?
Ah, é doença das horas...
-- Enquanto vivo, doente.
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