Heron Moura

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No reino da etimologia fantástica

No reino da etimologia fantástica

Heron Moura

 

Os gregos da Antiguidade estabeleceram uma forte distinção entre natureza e cultura. O natural estava ligado à essência do ser; o cultural era uma invenção humana. E nessa oposição, como ficava a linguagem, que transita entre a cultura e a natureza? Para Platão, a linguagem fazia parte da natureza; para Aristóteles, da cultura. A posição de Aristóteles está mais próxima de nós mesmos, pois sabemos hoje o quão arbitrária e não motivada a linguagem é. Mas a posição de Platão ainda nos surpreende e nos faz pensar. O que ele quer dizer quando afirma que a linguagem é natural?

Platão acreditava que os signos lingüísticos estabelecem um vínculo direto com as coisas. Assim como um serrote se ajusta à matéria que ele fende, assim uma palavra se ajusta à coisa que ela representa. Há um vínculo quase mágico entre o dizer e o ser. Esse vínculo foi criado por homens, não é divino, mas só pôde funcionar porque os homens mais sábios souberam apreender a essência das coisas, e dar nome a elas. E cada coisa tem seu nome apropriado.

No diálogo platônico intitulado Crátilo, o filósofo Sócrates defende com ardor o caráter natural e revelador das línguas humanas. A linguagem é vista como uma porta de acesso para as essências. Para mostrar isso, Sócrates propõe uma série famosa de etimologias. Segundo ele, ao estudar a origem das palavras (da língua grega, no caso), podemos vislumbrar o que cada palavra carrega da carga essencial das coisas. Uma crença similar se encontra no moderno fascínio pela origem dos nomes de pessoas. O que Clarice quer dizer? E existiria nome mais apropriado que Rosa para uma pessoa tão doce? Pois bem, Platão e Sócrates acreditavam que toda palavra carrega em si sua marca de nascença, ou seja, é um símbolo perfeito e apropriado do que ela representa.

Por mais encantadora e quase mística que tal busca da origem se revele, as etimologias propostas por Sócrates são quase todas erradas e fantasiosas, como hoje sabemos. O filósofo se enganou completamente (com poucas exceções) na sua incursão no terreno movediço da etimologia, tanto quanto um leigo de hoje em dia, que acredita que forró veio de “for all” ou que coitado tem alguma a coisa a ver com “coito”. A imaginação e a fantasia têm muito espaço quando lidamos com palavras.

De fato, Sócrates errou simplesmente porque não dispunha de instrumentos técnicos para estabelecer as etimologias corretas. Por exemplo, ele não tinha idéia de como surgira a língua grega, e hoje é possível retraçar a origem de muitas palavras gregas a partir do indo-europeu, a língua-mãe da maior parte das línguas da Europa (inclusive grego, latim e inglês) e de muitas línguas do oriente (como o persa e o sânscrito).

A técnica etimológica de Sócrates era aproximar duas palavras gregas que tivessem alguma semelhança de som e de sentido, e dizer que uma derivava da outra, assim como alguém que deriva, sem pestanejar, “coitado” de “coito”. Uma etimologia famosa (e errada) de Sócrates é a que deriva “soma” (corpo) de “sema” (sepultura). A semelhança entre as palavras é tentadora, e como Sócrates queria demonstrar que um signo revelava algo da essência da coisa, então lhe pareceu uma solução “natural”  ver no corpo a “sepultura da alma”. Sócrates estava errado do ponto de vista da ciência, pois sua etimologia, baseada numa analogia quase poética entre som e sentido, não encontra base nas raízes históricas da língua grega. Mas talvez ele não estivesse errado num ponto:  a evolução das palavras muitas vezes se baseia em analogias poéticas. Comumente, a origem real de uma palavra é tão ou mais poética do que o próprio filósofo sonhara. A língua real é analógica de uma forma que pode até causar espanto e descrença numa mente mais comedida.

Por exemplo, Sócrates propôs que gyne (mulher) veio de gone (geração), numa associação direta e elementar entre mulher e geradora, entre o radical de gineceu, ginecologista e misógino, por um lado, e o de gonorréia e gônada, de outro. Mas ele estava errado. Gyne (mulher, em grego) veio de *qwena, mulher em indo-europeu, que deu queen (rainha) em inglês e gana (deusa) em sânscrito. Ou seja, na origem, mulher foi interpretada como rainha, pelos anglo-saxões, e como divindade, pelos indianos!

Mais surpreendente é a derivação de “homem”. Essa palavra do português, que vem do latim, deriva da raiz indo-européia *ĝhom, que por sua vez está ligada à *ĝhthem, que quer dizer terra, barro, a qual deu também a palavra latina humus (lodo, lama)! Nada mais natural, sendo o homem feito de barro e pó!

Sócrates exercia um poder de analogia poética impressionante. Ele diz que doxa (opinião, em grego), que deu ortodoxia, vem de dioxis (procura) ou talvez do disparo do arco (toxon). Quem opina ou procura ou retesa o arco e atira!

Mas a vida real não é menos criativa. Doxa vem de uma raiz indo-europeia que significava muitas coisas: receber, saudar, ensinar. Essa raiz gerou o verbo grego dokein (pensar, parecer), que por sua vez está ligado a doxa (opinião). No latim, a mesma raiz deu origem a docere (ensinar), de docente, docência. O que gerou a palavra decente… De modo que ter uma opinião está mais ligado a agradar, saudar e ser decente, do que a retesar um arco e procurar um alvo. Pela etimologia (sempre enganosa, enfim), uma opinião é algo conformista ou uma ação voltada para o interlocutor (uma opinião não devendo ser indecente); para Sócrates, menos conformista, era uma procura.

 Sócrates defendeu que a palavra grega episteme (ciência) vem de epetai (do verbo acompanhar, em grego), significando que a alma acompanha o movimento das coisas “sem passar na frente e nem deixar-se para trás”. Saber uma coisa, ter ciência dela, é estar do lado dela, segundo Sócrates. Mas a etimologia dele estava errada, e os dicionários etimológicos modernos nos informam que episteme na verdade vem de epistenai, que significa permanecer diante, confrontar. Ou seja, a etimologia real é ainda mais fantástica que a etimologia imaginária de Sócrates. Saber é colocar-se diante do fluxo das coisas, bloquear e afrontar o que queremos descobrir. Heráclito dizia que tudo flui; construir um saber é antepor-se ao fluxo, criar uma barreira. Sócrates ficaria contente com a etimologia correta, com a qual ele nem sonhara.

 

 

 

 

 

  

 

 

Uma resposta para 'No reino da etimologia fantástica'

  1. Mai Diz:

    Li atentamente.
    Levarei este texto comigo e ‘ruminarei’ .
    abraços



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