Clarice Lispector é a nossa Maria Callas
Clarice Lispector é a nossa Maria Callas.
Heron Moura
Clarice Lispector é a nossa diva, a nossa Maria Callas. É uma princesa quirguiz, com olhos urálicos, e ar uzbesque. Estive, com uma amiga, na exposição sobre ela, no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília. É uma mostra muito tocante de imagens e palavras. Numa primeira seção, fotos esmaecidas em polaroide ficam por trás de vidros com textos de Clarice. As fotos de Clarice são um literatura por si mesmas. São dois textos superpostos: o das fotos e o das obras. É impossível ver com atenção uma foto de Clarice sem criar uma mitologia: quem era essa mulher? que tipo de beleza absurda e contida é essa?
Bastam as fotos para ver como é difícil enquadrar Clarice. Feminista? Sim, largou o marido diplomata e foi viver com os filhos no Rio de Janeiro. Mas também claramente uma dona de casa, que faz a feira e arruma os filhos. A forte ligação com os seus meninos é visível na exposição. Numa segunda seção da mostra, há uma sala com gavetões até o teto, e em alguns deles há documentos sobre a vida de Clarice: cartas, sobretudo. Como se pudéssemos ver a privacidade dela, como se isso fosse possível.
Ela chamava seus filhos de grilo, gafanhoto. Não posso imaginar uma mãe mais amorosa do que essa que, numa carta, manda dez dólares para que seu filho, que está estudando nos Estados Unidos, possa fazer “uma farrinha”.
E como essa diva escreve bem! Vou citar aqui só o uso de dois adjetivos no livro Via Crucis do Corpo, que foi publicado em 1974. Primeiro exemplo: “o sol estava tão guerrilheiro, tão bom, tão quente, que não leu nada…”. Um “sol guerrilheiro” é uma imagem perfeita para um sol que nos ataca pelos flancos e que nos transforma sem nos destruir. Neste mesmo conto, intitulado Miss Algrave, no qual um extraterrestre, duende ou íncubo, vira amante de uma puritana inglesa, a primeira sensação da moça ao sentir a presença do ser estranho é de “frisson eletrônico”, o que já diz tudo.
Clarice gosta de brincar conosco, apesar de dizer que é “uma mulher séria”. Ela escreve um livro erótico em que ets transam com inglesas e diz que pediu autorização dos filhos para publicar tais contos! Vocês imaginam Simone de Beauvoir pedindo autorização a um parente para publicar qualquer coisa? Em outro conto de Via Crucis do Corpo, a narradora desdenha da literatura: “Sei lá se este livro vai acrescentar alguma coisa à minha obra. Minha obra que se dane. Não sei por que as pessoas dão tanta importância à literatura”. E no entanto a literatura dela tem essa seriedade leve e quase insuportável que nunca se consegue colocar numa carta ou num e-mail; a literatura é muito mais que essa biografia em gavetas, mas, ah, as fotos dela valem tanto quanto a literatura. São também signos do que não se entende.
Saiu no ano passado uma fotobigrafia fantástica (Clarice-Fotobiografia, de Nadia Gotlib, IMESP,2009). Notei que em nenhuma foto do tempo de casada ela está abraçada a seu ex-marido; havia sempre alguns centímetros de distância entre eles. Algo aterrorizava o marido diplomata? Mas Clarice é essencialmente uma mulher abraçável. É difícil entender essas coisas.
Por fim, na exposição, reproduz-se uma entrevista dela a uma emissora de televisão, pouco antes de morrer. Está cansada, envelhecida. Mas ainda assim parece maternal, afetuosa, embora sarcástica. Fala com um sotaque estranho, pernambucano da ásia, um pouco de língua presa, um erre trocado, tudo muito sibilante, embora arrastado. Não sorri mais. Sabe que vai morrer? Já não parece uma diva, agora podia ser a minha mãe, ou a tua. Mas a inteligência está intacta, algo a incomoda, está tensa, está só e está conosco. Diz: “Todo ser humano é triste e solitário”. Diz que está morta. Mas que vai viver amanhã. Em Via Crucis do Corpo, a narradora disse que todo sucesso é uma mentira. Mas não é questão de verdade ou mentira. Clarice é uma diva que cabe nas fotos.
Ela diz, na entrevista, que é uma pessoa simples, não é um mito. Nada mais transparente. Faz parte do mito dela ser simples, a mulher que podemos amar e que nos escapa. Eu disse à minha amiga que se Clarice fosse francesa seria um mito nacional, como Simone de Beauvoir. Os franceses são criadores de mitos. Os brasileiros, devoradores. Mas talvez seja melhor assim. Clarice, com museu e mitologia, deixaria de ser simples. Está bem que ela fique como está, como fotos nas gavetas. Desde que sejam as nossas. (Publicado no Diário Catarinense, em 20 de fevereiro de 2010).
7/04/10 às 21:37
“Um sol guerrilheiro”. O que dizer de uma imagem assim?
forte abraço