Heron Moura

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Um passaporte para as metáforas

Um passaporte para as metáforas

Heron Moura

 

Vivi uma história curiosa no controle de passaportes de um aeroporto nos Estados Unidos. Estava um pouco tenso, há sempre aquele interrogatório desagradável, e eu posso muito bem ser confundido com um árabe secretamente fanático e potencialmente detonador. Estava nos Estados Unidos para participar de um congresso na área de lingüística, o que convenhamos não é muito ameaçador para a segurança americana, mas sabe-se lá o que nos vai ser perguntado. Pois bem, o funcionário me indagou o que eu ia fazer no país dele, e eu respondi com a verdade. Ele quis mais detalhes: sobre que assunto eu ia falar. E eu informei que ia falar sobre metáfora, o que é e como funciona. Para minha surpresa, o funcionário quis conversar sobre o assunto! E me perguntou se seria possível existir uma linguagem que fosse inteiramente metafórica. Que pergunta para um controle de passaporte! Eu disse que não, pois o metafórico se alimenta do literal. E aí ele redargüiu que num episódio de Jornada nas Estrelas havia um planeta no qual só se falava em metáforas, por meio de uma língua que se chamava metaforês. Eu disse que não conhecia esse episódio, que ia procurar, e ele finalmente carimbou meu passaporte.

  Pensando depois nessa conversa surpreendente, me veio a idéia de que talvez exista de fato um planeta no qual a fala é constituída basicamente de metáforas: o planeta Shakespeare.

Metáforas estão um tanto fora de moda na literatura, em especial na ficção. A regra da escrita moderna é a economia: um dos elementos a serem cortados é a metáfora, em especial quando ela começa a proliferar. Neste sentido, Shakespeare não é um autor moderno. Ele claramente abusa da metáfora, ele chafurda numa matéria viscosa de sentidos não-literais. O planeta dele não é só de pedra e água.

O ponto que eu gostaria de ressaltar é que o excesso de metáforas em Shakespeare reflete a excessiva humanidade de seus personagens (e nisso ele é moderno). Os personagens do autor inglês se vêem compelidos a metaforizar porque sua humanidade patente não se compraz no primeiro sentido que vem à tona; eles usam a metáfora como matéria maleável e volúvel que permite dar forma às suas fraquezas e virtudes. Não que a metáfora ilumine de uma forma especial o que eles sentem: às vezes, eles usam as metáforas para manter a distância, para proteger a si mesmos, para se isolarem em suas fragilidades. A metáfora é uma armadura, tanto para o ataque, quanto para a defesa.

Na verdade, a compulsão metafórica em Shakespeare cumpre muitas funções. Quando um personagem quer mostrar que reconhece e que desfruta de seu papel social, que sabe usar a máscara que a sociedade lhe confere, ele usa das metáforas como um meio cerimonioso de marcar a si mesmo como elemento de uma sociedade hierárquica. Um rei não pode ser literal; ele se abriga na metáfora como se ela fosse uma extensão de seu trono.

Dirigindo-se a seu general Macbeth, Duncan, Rei da Escócia, usa as seguintes palavras: “Ó ilustríssimo primo, o pecado de minha ingratidão ainda agora pesa em minha alma. Estás tão adiantado à nossa frente que mesmo as mais velozes asas da recompensa parecem lentas para te alcançar” (cito Macbeth na ótima tradução de Beatriz Viégas-Faria , publicada pela L&PM).

Esse uso cerimonial da metáfora não visa transmitir uma idéia nova, que a linguagem literal não seria capaz de exprimir. Não visa nem mesmo embelezar a linguagem, tornando-a mais amena; equivale a uma forma de marcar o aparato social que caracteriza a fala de um rei; e um rei é ainda um homem por trás das máscaras das cerimônias. É como se ele vestisse um manto ao usar uma metáfora.

Os personagens de Shakespeare têm um caráter altamente reflexivo; não basta a eles serem criaturas humanas, eles precisam trazer à tona essa circunstância. Parece que eles estão constantemente descobrindo que são seres humanos sujeitos ao logro, ao engano e à glória. Como disse o crítico Harold Bloom, Shakespeare inventou o ser humano, e eu entendo isso no sentido de que os personagens do dramaturgo inglês descobrem em si, a todo momento, a rede sutil que liga as idéias e emoções de cada homem.

Pois bem, o Rei Duncan poderia ter sido direto, pronunciando uma fala menos empolada. No entanto, a metáfora desenha a máscara do Rei, o que o torna distinto dos mortais. Mas o paradoxo é que o Rei sabe que no fundo ele é profundamente mortal; na verdade, ele será assassinado por esse general que ele agora honra com suas palavras. MacBeth é um homem, mas o Rei também é.

Não é que Shakespeare quisesse mostrar que toda glória é vã; ao contrário, a glória é um sonho a ser perseguido e conquistado; a metáfora da fala do Rei dá consistência e forma a esse sonho. Um plebeu pode ser direto; um rei fala de forma pomposa, porque sua glória é real, embora efêmera. Por outro lado, um rei sabe que a metáfora é um artifício de sua posição social; ele sabe que através do Rei fala um homem.

Num outro extremo, a metáfora pode ser usada para nos aproximar da crueza da emoção humana. Uma metáfora pode ser a melhor ofensa. Em Shakespeare, a imprecação é metafórica.

Quando Macbeth, já atormentado pelo remorso e pelo medo, recebe notícias de que dez mil soldados estão prestes a atacá-lo, ele solta o verbo contra o pobre mensageiro que trouxe a informação, e o chama de “cara de mingau”, “bochechas da cor de lençóis”, “cara de linho curado”. Essa verve da imprecação revela mais de Macbeth do que uma expressão direta e literal do seu ódio; o rei usurpador, assassino de Duncan, está submetido à sua paixão, e essa paixão recebe uma forma e se amolda muito melhor em expressões metafóricas. Aliás, a expressão de uma ofensa em termos metafóricos é algo que vemos no dia-a-dia. É uma fonte constante de terror e de prazer.

Assim, se um Rei pode usar a metáfora para ressaltar que ele fala de um lugar inalcançável e sublime, ele pode também usá-la como um cocheiro, para dar vazão a seu ódio.

A metáfora pode ser também um mecanismo de autoanálise. Os personagens de Shakespeare não apenas vivem, eles se vêem viver (e errar). Palavras como medo e ignomínia, culpa e vergonha são suficientes para descrever o coração de um assassino que lembra do crime perpetrado; no entanto, ao se descobrir como ser humano fraco e sanguinário, as palavras do assassino vêm com um gosto mais forte, como se a linguagem figurativa fosse o meio reflexivo de se ver a si mesmo.

Por vezes também, os personagens se entregam a um fluxo figurativo tão intenso, tão enredado e alongado, que nos perguntamos se há mesmo aí uma vontade de expressão, ou, ao contrário, uma busca de isolamento, uma imersão numa auto-análise, num contexto de dor ou de fascínio.

Como exemplo disso, vejam o seguinte diálogo de Antônio e Cleópatra (também na tradução de Beatriz Viégas-Faria: Antônio & Cleopátra, L&PM).

“Antônio: o que você tem para me dar é um coração gelado?

Cleópatra: Ah, querido, se fosse assim, que os céus chovessem granizo desde o meu coração gelado, granizo envenenado na fonte, e que a primeira pedra me caísse na garganta e, ao derreter, acabasse com a minha vida! A segunda pedra atingiria Cesário, até que se acabasse a memória do meu ventre…, com o descaramelizar dessa tempestade de pedras de gelo (…)”.

Granizo que sai do coração, vai aos céus e cai como fogo na garganta, matando também o fruto do ventre (Cesário, filho de Cleópatra). Imagens assim, só no metaforês de Jornada nas Estrelas!     

Em Shakespeare, a metáfora é uma espécie de espelho no qual se refletem as fraquezas de um assassino e de um bufão, e o fascínio de uma mulher apaixonada. Agora eu penso que eu deveria ter dito ao funcionário do controle de passaportes que a metáfora nos torna mais humanos, mas não mais sábios, e que sim,ok, é possível uma linguagem só de metáforas. (publicado no Diário Catarinense, em 20 de março de 2010).

 

 

2 respostas para 'Um passaporte para as metáforas'

  1. Mai Diz:

    Estava com saudades de ler-te.
    E li os tres textos em um só gole.

    Sempre um banquete.
    beijo

    P.S.

    Nos dois primeiros textos, a fonte está configurada em outro tamanho, bem melhor este último.

  2. Mai Diz:

    O ‘metaforês’ foi um bom mote.
    Imagine se fosse um disfarce…Teria sido mais uma falha da segurança americana, afinal tens feições que poderíamos dizer…’fundamentalistas’?
    Pernambucanos não são talibãs, afinal.

    Eu sorri imaginando a cena que em si foi metafórica.
    bjo



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