Heron Moura

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Evocação de Lévi-Strauss:
O ser humano só foi feliz na Idade da Pedra?
Heron Moura

A morte de Lévi-Strauss causou uma polêmica sobre seu legado: era ele um humanista ou, ao contrário, um relativista radical? Para alguns comentaristas, ele foi um dos grandes propagadores da ideia de que não existem povos primitivos do ponto de vista do desenvolvimento intelectual; o espírito humano está completo na civilização mais precária. Para outros analistas, ele é um dos pais do relativismo cultural, de acordo com  o qual não há norma ou padrão universal que sirva de parâmetro para a criação cultural humana. Especificamente, nada indicaria que a democracia moderna seja mais humana que as sociedades primitivas. A democracia industrial seria um tipo de mitologia, não um padrão de sociedade.
Um ponto parece ser incontestável em todas as análises: Lévi-Strauss nutria uma enorme simpatia pelas sociedades ditas primitivas: é famosa a sua frase segunda a qual “o homem só foi feliz no neolítico”.
Eis aí uma das fontes da contradição percebida pelos analistas: para o grande antropólogo francês, as sociedades primitivas não eram de fato iguais às sociedades modernas. Eram melhores. Assim, ele tanto era um humanista que tentou mostrar que o espírito humano prospera mesmo na precariedade material, quanto alguém que relativizava os valores humanos ao ponto de vista de sociedades específicas. Cada sociedade cria e molda o ser humano à sua maneira. Lévi-Strauss era tanto um humanista, quanto um relativista.
No entanto, o seu amor ao exótico e ao primitivo o lança nos braços da diferença; ele ama o que não é moderno. Ele só é feliz no que está distante.
Eu sempre gostei de ler os livros dele; mas não sei se aprendi muito sobre os índios e os primitivos aos lê-los. Eu lia os seus livros como obras literárias; os mitos aí  são dissecados e rearranjados, temas aparecem e se repetem, associações inesperadas evocam não a descrição de um sistema cultural, e sim um romance, uma sinfonia ou um poema. Se levamos a sério as análises mitológicas de Lévi-Strauss, os povos ditos primitivos não apenas não são simplórios, como exibem uma finesse e uma complexidade mental de grandes poetas ou músicos.
A comparação famosa de Lévi-Strauss é mais modesta, no entanto. Para ele, a mitologia é uma bricolagem. Basicamente, isso implica que cada mitologia constrói um sistema de significação com base em materiais recolhidos ao acaso, e o sentido nasce da reorganização desse material heteróclito num todo significativo. Um artista da bricolagem junta de tudo (botões, pedaços de tecido, grampos, etc), com o objetivo de montar algo que fique de pé por si mesmo. O criador de mitologias faz o mesmo, só que ele utiliza resíduos e fósseis da vida social e pessoal: histórias, lembranças, fragmentos de mitos ou eventos. O primitivo é assim um artista da precariedade não material, mas simbólica.
Pois bem, eu sempre li Lévi-Strauss como um artista dos signos. Como um grande senhor da velha literatura francesa, ele não me parece prioritariamente preocupado em desvendar a natureza do material com que trabalha, mas o seu interesse principal reside na própria construção e simbolização da análise; ele, por assim dizer, está mais preocupado em criar a análise do que em descrever o objeto (no caso, as mitologias).
Hoje é lugar comum admirar as obras e as criações mentais dos povos ditos primitivos como sendo algo sofisticado e complexo. Não há mesmo dúvida que a criação de uma mitologia exige tanto rigor analítico quanto intuição estética, como qualquer outra criação humana de grande porte.
O problema é o amor à diferença, a idealização do diferente. Na obra O pensamento selvagem, Lévi-Strauss se dedica a ressaltar as diferenças entre a mitologia e a ciência moderna. A análise que ele faz é muito complexa, mas um ponto claro e essencial é que a mitologia combina imagens e conceitos, ao passo que a ciência está ancorada em sistemas de conceitos, apenas. A mitologia funde o específico (a imagem) e o sistemático (o conceito). A mitologia se recusa a oferecer uma régua única para interpretar os eventos, como a ciência faz. Cada mito rearranja o vivido e o sabido de uma forma nova, simbólica. O criador de mitologias faz bricolagem com a sua vida; o cientista se anula perante o vivido, para chegar às causas não aparentes.
Essa afirmação do vivido e do imaginado como um valor essencial dos povos primitivos já se encontrava em Vico, filósofo italiano nascido no século dezoito. Vico dividia a história do ser humano em fases históricas; quanto mais primitiva a fase, mais a imaginação dominava – o mundo primitivo era o reino da metáfora.
Um mesmo impulso para separar e dividir o humano se encontra em Lévi-Strauss, se bem que de forma muito mais complexa e até obscura. De toda forma, ele parece sustentar que a mitologia é obra de poetas, e a ciência, obra de racionalistas frios.
Essa valorização da imaginação embute uma série de outros julgamentos de valor implícitos na obra de Lévi-Strauss. Os primitivos seriam mais próximos da natureza, não se atribuíam um estatuto especial em relação aos animais (um reflexo disso sendo o totemismo, que embaralha homens e animais), eram mais sensíveis aos estímulos sensoriais causados pelas coisas e seres que povoam o mundo… Eram, em suma, mais ecológicos e mais sensitivos. Eis aí o dilema: Lévi-Strauss não queria dizer que o ser humano é igual em todos os quadrantes e em todos os tempos; ele queria significar que o modo de vida e de simbolização dos primitivos era, em alguns pontos, superior ao nosso.
Isso é um lugar comum hoje em dia. Todo mundo gosta de elogiar o modo de vida dos índios, a sensibilidade ecológica dos povos primitivos, etc. Nesse sentido, Lévi-Strauss elaborou um discurso hegemônico. Não é o ponto aqui questionar essas crenças, embora essa suposta sensibilidade ecológica seja altamente discutível. Há inúmeros exemplos de sociedades primitivas que causaram desastres ecológicos, às vezes levando à sua própria destruição (a Ilha de Páscoa e a civilização maia são dois exemplos famosos).
O que me interessa chamar a atenção é que essa poesia da diferença era altamente rentável, como forma de análise, para a literatura de Lévi-Strauss. Se cada coisa exala uma vida própria, e se cada coisa (uma planta, um animal, uma divindade) pode ser combinada e recombinada num sistema de signos, como num caleidoscópio das coisas vividas, é possível extrair uma poesia inextinguível da análise de mitos. Pouco importa se um mito pode ser simples; o material de que ele é feito é um signo do infinito.
Mas eu me pergunto se tudo isso não está no campo da literatura, e não da sociedade (primitiva ou não). Eu me pergunto se essas associações inesperadas que Lévi-Strauss via nos mitos não é obra literária, da mesma forma que Barthes via nos objetos banais da vida moderna um significado rico e complexo, numa obra que, caracteristicamente, ele intitulou de “Mitológicas”.
Talvez em toda ação humana resida um potencial poético inesperado; não é preciso voltar ao neolítico para ser feliz.



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