Heron Moura

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O que é preciso para entender Van Gogh?

O que é preciso para entender Van Gogh?
Heron Moura

Van Gogh tornou-se um mito, e deixou de ser um pintor. Transformar um artista em mito é uma eficiente forma de matá-lo. O mito está duplamente morto: na vida real e na substância de sua arte. O que se percebe dos mitos é um esquema, uma estrutura. Não se vê o quadro, mas o vidro blindado que protege o quadro. Se vê a fama e o nome, não a tinta e o traço.
Se deixamos de lado o mito, e se olhamos um quadro de Van Gogh apenas como um quadro pintado por alguém que tinha esse nome, ou seja, se vemos uma tela com pigmentos, o que de fato vemos? Com certeza, não um relato de um mito.
O que é preciso para entender Van Gogh? Não é preciso entender a forma como essas telas foram criadas, não é preciso ler as cartas que o artista escreveu descrevendo o seu processo criativo. Não é preciso supor uma personalidade atormentada, o glamour da loucura e do gênio. O glamour ajuda a vender, mas não ajuda a pintar. A pintura de Van Gogh é uma forma de lucidez, não de loucura.
Van Gogh é visto como um roteiro de um filme. E o ato de jogar tinta na tela importa pouco num roteiro. O que importa, num filme, é o que torna Van Gogh um Van Gogh, a nunca explicitada vontade de empalhar o artista, de torná-lo um personagem charmoso e deslocado, o antídoto da multidão. Mas Van Gogh apenas pintava e pintava, e tinha dificuldade de pagar suas contas. Nada mais entediante que um filme em que o pintor aparecesse de costas, apenas pintando.
 O artista é um operário, um artesão. Um pintor se suja tanto quanto um pedreiro. Como diz o próprio Van Gogh, “em nossa suja profissão de pintor temos a maior necessidade de gente com as mãos e estômago de operário” (tradução minha). Nada do suposto drama de uma alma atormentada: apenas uma mão ágil e a capacidade de ingerir pó. Iberê Camargo emplastava suas telas com tinta cara como se ela fosse lama, ele se gastava e gastava os pigmentos que se aglomeravam na superfície. O artista lida com a pior matéria, a que mais suja. Jackson Pollock pingava as gotas de tinta lentamente sobre as telas deitadas. Reconhecer isso não é criar um novo romantismo do “artista sujo”; o artista é um operário como outro qualquer. Não tem prerrogativas especiais de sujeira.
Então o que é preciso para entender Van Gogh? É preciso se despir da razão e voltar a um suposto estágio infantil de imaginação e liberdade? Qualquer criança pinta como Van Gogh? Apenas tente pedir a seu filho para pintar como Van Gogh. O holandês levava meses para pintar um quadro. Ele suava a camisa, como um jogador de futebol. Para fazer certas instalações limpinhas em galerias com ar-condicionado, sim, talvez baste ser criança. Para pintar uma tela como “O semeador”, é preciso muito trabalho. Você não precisa se tornar um idiota para entender Van Gogh.
Para entender Van Gogh, é preciso destrinchar os meandros da grande especulação do mundo da arte? Arte é um negócio complicado hoje em dia; os artistas são cotados em bolsa de valores, e os acionistas querem cada vez mais dividendos. Você pode especular à vontade com um Van Gogh, se tiver o capital necessário para entrar no jogo. Toda essa arte em telas virou um mundo de símbolos, quase um sistema monetário. As telas são símbolos em circulação. Por exemplo, um Van Gogh vale dez Iberê Camargo, como um euro vale quase 3 reais. Como dizem os economistas, uma moeda é uma questão de crença e confiança. Se a credibilidade desaba, a pintura vai junto. Ninguém pinta, todo mundo especula. Será que Van Gogh um dia vai desabar como o dólar? Mas isso não ajuda muito a entender Van Gogh, embora possa ajudar a aplicar na Bolsa.
 Você precisa ser um curador para entender Van Gogh? Ou um crítico de arte? Você precisa saber situar o holandês na história da pintura, ou precisa ver que ele ajudou a matar a pintura em tela, numa morte lenta que só ocorreu décadas depois dele? Você precisa perceber que Van Gogh não é Van Gogh, e sim uma ligação icônica com a pop art, ou a body art, ou qualquer denegação posterior da pintura em tela? Não, deixe isso para os elegantes.
Eu não sei o que é preciso para entender Van Gogh. Talvez baste a descrição que ele mesmo faz do esboço do que se tornaria o quadro O semeador: “um imenso disco de amarelo-limão para o Sol. Céu verde-amarelo com nuvens cor de rosa. O campo é violeta, o semeador e a árvore, azuis”. Imagine agora a composição dessas cores. Há um pequeno curto-circuito no seu campo visual. Agora pense numa geometria não para as figuras, mas para as cores em si. O arranjo delas na tela, as pinceladas. Você tem uma pequena alucinação. Agora esqueça o esquema, e veja tudo isso junto, a figura do semeador, a paisagem e as cores retorcidas e brilhando. É como abrir a janela. Não é simples, mas é como abrir uma janela numa manhã radiosa.



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