Heron Moura

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O mundo ficou complicado demais para o poeta

O mundo ficou complicado demais para o poeta
Heron Moura

A obra do poeta português Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) é dessas que, em miniatura, nos apresentam o panorama e o drama de uma época da literatura. No poema “Quase”, o quarteto inicial é como uma chama brilhando no meio de uma calçada:

Um pouco mais de sol   - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

O poema é esse élan que nos lança em direção do que não sabemos, mas, como uma chama, ele morde para dentro, se contorce, e se anula. Mário de Sá-Carneiro, de vida curta e trágica, era um simbolista perdido em pleno século XX. O seu simbolismo o tornava inerte, incapaz de agir. A sua obra (curta como a sua vida) é o poema da mente antes da ação, aquele instante em que o braço está programado para se lançar ao combate, mas fica imóvel, convertendo-se apenas no símbolo de um braço em combate, longe do alvo da ação.
Por que tantos poetas e poemas do século XX falam dessa impossibilidade de agir? O pensamento é a ante-sala da ação, mas esta não se realiza. O poeta, herdeiro do simbolismo, manipula o poema como símbolo, não como forma de transformar o pensável e a imaginação em algo que faça parte do mundo e o habite. Por quê?
Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Uma explicação possível é que os poetas modernos pós-simbolistas se afastaram da ação no mundo por uma questão ideológica, pela ausência de fé e crença em algo que tornasse viável o campo de ação. E não estou falando aqui de ação prática nem de pregação retórica ou política, mas de intervenção na consciência social que se tem do mundo. O fato é que o mundo moderno se tornou excessivamente complicado para a imaginação do poeta. O poeta só crê naquilo que ele cria e manipula, e muita coisa no mundo moderno (a tecnologia, a complexidade de uma cidade contemporânea) está além de seu alcance de criador. O poeta pode criar uma chama, uma asa, uma maçã, a ogiva de uma igreja, mas ele tem dificuldades com os mecanismos de uma ogiva nuclear e com o fluxo do trânsito nas vias da cidade. O herói do poema se acovarda diante do mundo, não por falta de coragem poética, mas porque se vê perante a inutilidade da ação. Houve uma cisão entre o poeta moderno e o mundo moderno.
Esse choque entre a complexidade (e artificialidade) da vida contemporânea e a necessidade de amassar o seu próprio pão, de modelar o seu próprio sol, típicos do artesão e do artista da palavra, esse choque só aumentou desde a época de Sá-Carneiro, que ainda viveu no tempo dos bondes e do telégrafo.
Mas talvez haja algo mais nessa valorização do símbolo e a correlata desvalorização da ação, tal como se vê na poesia do poeta português. Por que, na poesia moderna, símbolo e ação se afastaram tanto, as duas pontas nunca juntas do arco? Por que o pensar poético tende à inércia, à contemplação e à angústia do não-fazer?
A meu ver, isso resulta também de uma forma de encarar os signos lingüísticos. Nessa visão que o poeta contemplou, a linguagem é Forma, não Ação. A linguagem é uma espécie de matéria, que os poemas esculpem. Mas, diferentemente da escultura, o que se esculpe são símbolos, ou seja, significados. O poeta é um escultor de significados, não de idéias, pois idéias têm algum vínculo com a ação. Nessa perspectiva pós-simbolista, os significados existem por si mesmos e são inertes. Essa é uma herança simbolista que a poesia moderna carrega até hoje.
Trata-se de uma visão curiosa da linguagem humana. Essa visão torna estático o que é dinâmico. O filósofo americano John Searle afirma que os signos, em si mesmos, nada significam ou referem. Quem significa e refere é o falante que faz uso dos signos. O falante produz atos ao falar, ao articular signos em sentenças. Falar é, essencialmente, uma forma de agir. Como essa épica da linguagem pode ter se perdido (ou ficado oculta) na poesia moderna? Por que um poema de Mário de Sá-Carneiro lida com o símbolo da inação e do nada? Um mundo só de símbolos é como o mundo dos totens da Ilha de Páscoa; belo, mas tombado de lado.
Há também uma analogia que pode ser feita com o funcionamento do cérebro humano. Em nossa mente, há os chamados neurônios-espelho, que mimetizam sinais de ação. Por exemplo, quando vemos alguém manipular uma faca, nosso cérebro aciona neurônios que mimetizam as ações que estamos vendo, como se nós estivéssemos fazendo aquela ação de empunhar a faca, embora nosso braço esteja imóvel! Os neurônios-espelho certamente nos ajudam em nossas atividades cognitivas, e nos preparam para a ação.
Pois bem, o nosso Mário de Sá-Carneiro descreve, em seu poema, um indivíduo que só teria neurônios-espelho, e que é incapaz de agir. A existência se reduz aos símbolos que mimetizam a ação, e nunca se atravessa a ponte que leva ao que existe ou pode existir: “tudo encetei e nada possuí”. A ação é pegar o mundo num certo estado e deixá-lo noutro estado. A fala é parte dessa ação. O símbolo é só um caminho.
Fernando Pessoa, amigo e admirador de Sá-Carneiro, era também obcecado com a incapacidade de transformar idéias e símbolos em intervenção (ainda que mental) no mundo. Pessoa queria agir e criar cultura, influir na civilização, mas se via preso em si mesmo e na sua rede simbólica. Ele imaginava que a única maneira de escapar do simbolismo e romantismo remanescentes na poesia moderna seria através da fusão do subjetivo (a mente) com o objetivo (o mundo). Mas Fernando Pessoa não deixava claro como isso podia ser feito. O que resta sempre, na obra dele, é um signo lançado como uma chama, uma mensagem que não tem um braço e uma lança, e que arde sozinha.�
Que Pessoa e Sá-Carneiro, portugueses por vocação e instinto, sintam saudades do que não existe, não é nada estranho e os torna tão próximos de nós, tão vivos na impossibilidade de criar uma civilização que fosse a sombra do que tinha sido outrora. Não se pode agir sobre o passado, assim como os totens da Ilha de Páscoa não podem ser erguidos de novo, no seu antigo significado. No entanto, o simbolismo latente da poesia moderna está presente em todos os quadrantes, em todas as nacionalidades; o mundo ficou complicado demais para o poeta.



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