Heron Moura

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Bolaño apostou contra a morte

Bolaño apostou contra a morte.

Roberto Bolaño (1953-2003) é um escritor chileno que fez uma aposta contra a morte. Depois de uma vida boêmia, o seu fígado estava imprestável, e ele estava desenganado, embora um transplante pudesse lhe dar ainda alguns anos de vida extra. Contudo, a fila para o transplante de fígado era longa, e ele terminou morrendo na Espanha, onde morava, antes de ser operado.
Alguns anos antes de morrer, no entanto, ele fez uma aposta contra a morte. As suas fichas? A literatura. Quando soube que ia morrer, ele decidiu que iria escrever sem parar, de forma compulsiva, uma série de romances e artigos de crítica literária, além de poemas. E de fato ele foi extremamente produtivo nos últimos anos de vida.
Já que sabia que ia morrer, Bolaño apostou que sua obra seria a responsável por uma prolongação de sua existência. Mas ele deu também uma razão mais terrena para essa produção intensa: queria legar para seus filhos um espólio literário considerável, pois não tinha um patrimônio material.
Qualquer que tenha sido a sua razão mais íntima, fica a dúvida: como ele sabia que seus romances seriam bem recebidos e lidos? Não poderiam eles cair no esquecimento, tanto quanto o próprio autor? Além de não prolongar a vida, essas obras não poderiam ser uma forma de destruí-la de vez?
Sempre podemos imaginar que tudo se resume a uma questão de confiança em si mesmo e muito trabalho, e o resto vem como conseqüência. Mas isso não explica como ele sabia que tipo de romance devia escrever nestes anos definitivos, a fim de criar um patrimônio para seus filhos. Ele devia ter em mente a forma desses romances, e sabia como chegar a essas formas.
Aí a resposta que podemos buscar se torna bem mais complicada, e vai muito além da força de vontade que atribuímos ao artista. Podemos vislumbrar duas alternativas, para tentar explicar a questão.
A primeira é que há essências artísticas, tipos de formas literárias que existem por si mesmas, cabendo ao autor encontrá-las, pô-las a nu. Essas formas têm uma existência independente do autor, ele é apenas o instrumento de realização dessas formas. É um pouco como na teoria platônica das idéias: o conhecimento é uma reminiscência – descobrimos a verdade ao nos acercarmos de formas ideais que preexistem a nós mesmos.
Modernamente, essa busca de essências se traveste muitas vezes numa busca da essência da linguagem. Muitos teóricos e poetas acreditam que os poemas estão todos prontos na língua, cabendo ao criador desenterrá-los da linguagem cotidiana.
Outra versão moderna dessa busca de essências é a percepção de que todo mundo, não apenas os artistas ou criadores, tem pelo menos um livro dentro de si. Um livro não escrito, um livro sem palavras, mas cuja forma estaria oculta dentro de cada pessoa, como expressão de sua experiência e de sua verdade. O artista seria aquele que desvenda e traz à tona essa verdade interior, que já existia como essência, como potência.
Nos Estados Unidos, e provavelmente em outros países, há uma explosão de livros que são pagos pelos próprios escritores. Há uma parte importante do mercado editorial americano voltado exclusivamente para esse filão, e o número de livros auto-financiados atinge a casa de milhares de títulos publicados por ano. Pode-se prever um futuro em que haverá mais autores do que leitores. E por quê? Porque quase todo mundo acredita que dentro de si haja uma forma, uma substância que pode ser articulada criativamente.
Bolaño acreditava em alguma dessas teorias sobre essências? Acreditava que a forma literária é algo que subsiste por si mesmo? Bolaño é ambíguo quanto a isso. No seu livro de crítica literária Entre Parêntesis (Anagrama, 2004), ele indaga: “Qual é esse novo território (da narrativa escrita em espanhol)? O mesmo de sempre, mas outro, o que é uma forma de dizer que não sei. Em todo caso, é o território no qual estão os ossos de Cervantes e de Valle-Inclán, e é o território não palmilhado, o território dos mortos e o território da aventura”.
Mas as teorias sobre essências enfrentam um problema básico. Simplesmente, só algumas obras são reconhecidas como interessantes e legíveis, ao passo que a maioria cai no esquecimento, e só é lida pelo próprio autor e um ou outro amigo ou parente. Ou seja, há essências que perduram, ao passo que outras não duram nada, o que parece contraditório com a idéia de essência.
Robert Young, executivo de uma dessas editoras americanas que se dedicam ao lucrativo negócio de publicar livros financiados pelos próprios autores, num momento de lucidez e humor, afirmou, em entrevista ao New York Times, que “(em nossa editora) publicamos sem dificuldade a maior coleção de poesia ruim de toda a história da humanidade” (a tradução é minha).
Uma outra hipótese para entender o que Bolaño tinha em mente ao apostar contra a morte, é dar um sentido mais radical ao termo aposta. Bolaño simplesmente não sabia se seus livros teriam sucesso: ele apenas imaginou que sim. Não havia uma essência desnudada, mas uma construção artística que podia ou não circular na cultura, ser aceita ou não por um conjunto de outras mentes.
Nesse caso, a forma literária não existe como um valor em si mesmo. Trata-se de um objeto intangível que pode ou não se fixar na memória de outras mentes, vivas no seio de uma cultura. Neste caso, não há a revelação da essência, mas o acaso da aposta. Se acreditasse em essências, Bolaño saberia que a obra a ser criada deveria fazer sucesso; se não acreditasse, ele saberia apenas que essa obra poderia fazer sucesso. E entre dever e poder há uma grande diferença.
Mas note que, ainda que a gente suprima a crença em essências, o sucesso de uma criação artística continua um mistério. Por que, entre tantas obras criadas, apenas algumas perduram, e a maioria cai no esquecimento? Por que algumas obras (e autores) povoam a memória de uma época, e depois, em gerações posteriores, sucumbem no abandono? Por que uma estrutura, um verso, uma idéia, se fixam na memória e repercutem na vida das pessoas?
Biólogos e filósofos acreditam no conceito de memes, que seriam unidades mínimas de formas culturais, as quais estariam submetidas às mesmas regras dos organismos vivos e dos genes. Por exemplo, uma idéia como a imortalidade da alma, ou um verso como “O único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido íntimo nenhum” seriam memes que competem com outros memes para sobreviver na mente das pessoas. Os organismos sobrevivem na natureza, competindo entre si pelos mesmos recursos, ao passo que os memes sobrevivem nas mentes humanas, onde competem por um espaço na memória. Qualquer que seja o valor dessa extrapolação mental do conceito de sobrevivência, o certo é que as formas culturais de fato estão sujeitas a uma dura lei darwinista de reprodução, cópia e desaparição. Quantos poemas já morreram depois de escritos, quantas canções foram entoadas e depois esquecidas…
O que Bolaño tinha em mente ao prever que podia conter sua própria morte ao escrever certos romances? O fato é que ele acreditou na sua aposta, ao ponto de colocar o futuro de seus filhos nesse empreendimento.
O interessante também é que, seja como for, ele converteu seus romances em bens avaliáveis, em itens de uma herança. Ele percebeu o romance como um objeto de consumo, pronto para ser vendido. Mas como ele podia saber que ele seria comprado? Acreditava ele que toda essência platônica termina adquirindo valor comercial? Ou ele via o artista como um empresário de formas artísticas, um empreendedor cujo mercado é a memória?

4 respostas para 'Bolaño apostou contra a morte'

  1. Mai Diz:

    Heron,

    ‘covardia’ à parte, vou te dizer que chorei lendo o texto, até mais da metade.
    Parte porque acabo de desestressar de uma ’situação limítrofe’… ligada ao tema morte’.
    Parte porque a tua escrita é tão perfeita que pareceu-me que, realmente, conversávamos eu e tu, um olhando para o outro.
    Isto foi ….(pff…)
    sem palavras…

    Queria encerrar a sessão de elogios mas não dá, ainda e mesmo sem gostar de bajulações tenho que ser justa e franca.
    Já li quase tudo o que escreveste aqui.
    Já fiquei horas nessa tua página e se tiveres um contador de ‘giros’ vais ver que (quase) não minto.

    Mas esse texto que acabo de ler é o melhor que já li.
    Amanhã quando postares outro (sim porque esse foi rapidinho) até poderei rever o
    ‘ranking’…

    Preciso te agradecer porque era isto que eu precisava para compreender melhor alguns processos de suicídio, por incrível que pareça…

    beijo-te.
    adoro-te

    moderna, eu…
    (sequela lusitana do acordo ortográfico)

  2. Mai Diz:

    Bem, hoje estou ‘medicada’ e mais tranquila, não chorarei.
    Mas reitero tudo o que deixei aqui, ontem.
    Alguns pontos desse teu texto chamaram-me a atenção e eu destaco para interagirmos afinal, é muito chato falar com uma tela e um template pois eles não me respondem.
    Sinto-me uma acéfala portadora de necessidades auditiva e oral.
    Eu falo pelos cotovelos e penso na velocidade de 6 Mbps com memória de 2 Gb.
    Privada de fala escrevo tão compulsivamente, quanto.
    (Isto é tudo mentira. É só para saberes que ela pensa…)
    Vamos então às dúvidas.

    Falando de Bolaño lembraste que és um escritor? Falavas de ti, também?
    Não precisa responder é pura provocação.
    Essas hipóteses levantadas são referências ou mera congectura?
    Essa eu preciso saber.
    Se são hipóteses validadas, quem aferiu o pensamento dos escritores e quais foram as pesquisas?
    Esta também seria interessante e daria uma boa discussão …(não vou falar da academia porque és docente mas tenho implicância com a tal história da validaçao científica…)
    Uma outra questão que se configura para mim como relevante é saber onde entra a técnica.
    Sim porque qualquer ‘mané’ com sobrenome de coelho pode ser imortalizado e nem engolir o coelho se irá poder (não como coelhos. Não gosto. Muitos gostam e digerem. Esse tipo de alimento eu não tenho boa digestão. Nunca comi e não comeria.)

    Para que eu faça minhas elucubrações, preciso que me respondas e assim possamos prosseguir com a aula.

    Depois vamos ver quando poderemos ter uma aula presencial porque essa matéria em
    e-learning é muito interessante mas alunos aplicados merecem ao menos respostas por
    e-mail.

    Heron, eu não me conformo com essa tua preguiça em responder e-mails.
    Até desconfio que andas lendo alguma coisa que eu possa ter escrito mas com efeito,
    nem sendo tua conterrânea e leitora assídua do teu blog desde março de 2008, não sou relevante para ti?
    Não costumo cobrar mas tenho a tendência de pensar que devas estar rindo, agora…
    Se eu puder te avaliar, este detalhe será levado em consideração.
    Isto é fato.

    Encerrada a sessão de elogios e dúvidas,
    deixo-te em paz até o próximo ‘ataque’.

    Ah!
    Postei um texto sobre a primeira dança de Barak e Michele Obama…
    Não sei porque lembrei de ti…

    Ah!

    Próximo tema?

    Bem, te pedi o que, mesmo?
    Se ainda não tiveres nada falei em Cammus e Borges seria bom…


    Deixa te falar agora sério.
    Estudaste psicanálise?
    O diálogo que consegues fazer nessa transversalidade de saberes, é bárbaro. Poucas vezes li alguém tão lúcido nas articulações…
    Sério. Não bajulo facilmente.
    Isto é importante que eu diga porque foi justo o que mais me prendeu aqui.
    Eu faço isso.
    Articulo um tema em meio à filosofia, sociologia, antropologia, psicologia e todas as gias que quiserem entrar…

    sério.
    adoro-te…

    Volto
    se puderes escreve e me avisa.
    Se te arrependeres e quiseres escrever, já te manei meu mail.

    Beijo-te

  3. Mai Diz:

    conjectura é melhor…
    peço desculpas por não ter revisado o comentário.
    Não costumo fazer ‘lambanças’…
    Mas sou humana e as faço.

    Beijo-te

    Sabe que estou gostando desse ‘troço’ de adoro-te e beijo-te?!?

    Os hífens eu ainda não larguei…

  4. Mai Diz:

    Claro que sou eu, outra vez.
    Estive pensando sobre Wolfgang Amadeus Mozart e a composição do Requiem… Será que ele sabia que morreria compondo aquela ‘morte’?

    Sei lá…

    Tá bem, se Platão estivesse certo não faria parte dos estudos epistemológicos de psicologia. Se existissem essências à priori e se cada homem fosse mesmo um livro, o meu livro teria páginas arrancadas e algumas eu colaria prá ninguém ler. Que achas?
    Algum escritor ‘caçador’ de serendipidades me conseguiria decifrar códigos como se houvesse uma determinação genética ou uma vida já programada?
    Me diz, vai, não me deixa aqui feito um brócole escrevendo nessa tela pálida…
    Escreve, vai…

    Abraços.
    Porque que eu gosto tanto de vir aqui?
    E onde estão todos os outros ???



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