Poesia, jogo e desenho animado.
Poesia, jogo e desenho animado.
Heron Moura
De férias, fui jogar Quest, um jogo de perguntas e respostas. Me saí bem na seção Artes, mas muito mal na seção Entretenimento. Por exemplo, não me lembrei de jeito nenhum dos nomes dos personagens da turma do Manda-Chuva. No máximo, recordava do Guarda Belo (que não contava para a resposta, pois não era da turma do Manda-Chuva) e do Batatinha. As perguntas eram para especialistas.
Confesso: sempre preferi Proust a Star Wars. Mas devo admitir também que, por dever de ofício paterno, tenho acompanhado a nova onda de filmes de animação, e no meu entendimento são ótimas produções artísticas, sob qualquer ângulo que se considere o conceito de arte. Arte para mim é elaboração, surpresa e memória. Pois bem, a cultura pop, muitas vezes, satisfaz essa definição pessoal.
George Steiner, que não pode ser acusado de populista, afirmou, em entrevista publicada na Folha de São Paulo (18-01-2008), que se Shakespeare fosse vivo, seria roteirista. É provável, mas esse tipo de afirmação manifesta apenas a intenção de quem fala, não uma verdade a ser testada.
A questão não é como o gênio se manifesta hoje, mas a qualidade do produto artístico obtido, seja obra de quem for. Um desenho animado da Pixar parece o resultado de uma soma de insights de um conjunto de criadores. Talvez Shakespeare seja hoje uma multidão, quer dizer, ninguém em especial.
Tendemos a perceber a cultura como uma pirâmide; na base, manifestações populares e pop, e no topo da construção a ponta estreita da alta cultura. Nada mais falso, pois há tanto lixo na alta cultura quanto há na cultura pop. E o lixo não se sustenta no topo.
Talvez um jogo de perguntas e respostas, uma roleta da cultura, seja um retrato mais fiel da situação. Pegue uma ficha qualquer; pode ser um cartoon, um poema, ou uma série de tv. Na verdade, talvez estejamos num emaranhado de sub-culturas, de partes do todo; não conhecemos nunca o edifício inteiro, a biblioteca de Babel, a estante de Batatinha e a de Proust.
Se um poeta vai jogar Quest, ele pode perder ou pode ganhar. Uma coisa é certa: ele não tem privilégio sobre os outros. Há duas posturas que eu desaconselho aos poetas na hora de jogar: a) sentir-se superior e desprezar as cartas. Cuidado, um poema ultramoderno pode ser uma obra de elaboração ínfima, um resíduo técnico. Arte é elaboração e dispêndio, e também concentração de força. Um poeta pode se desconcentrar e usar velhos truques, como elipses, sintaxe truncada, mudança de tom e de registro. Nesse caso, ele pode até produzir um artefato, mas ele não vai ganhar o jogo.
b) outra postura não recomendável para o artista é sentir-se excluído, como se ele fosse um afásico numa terra de falantes. Essa é a postura apocalíptica, que enxerga no mundo em torno a degradação da pirâmide, o achatamento do triângulo que coroa a cultura. Ninguém lê poemas, ninguém sabe o nome dos personagens de Proust! Nesse caso, você se torna arauto do passado, e perde o jogo. O jogo pressupõe que todo mundo é alfabetizado.
A única chance de ganhar é apostar forte. No mínimo, respeitar as exigências da arte, e tentar, dentro do poema, algo que alguns produtos pop conseguem. Um poema tem de ser: a) intenso; b) ágil; c) surpreendente; d) criador de memes, ou seja, esses fragmentos de formas, idéias e palavras que marcam a mente de quem pertence a uma determinada cultura.
É difícil obter um poema assim. As chances de apostar errado são muito grandes. Você pode se tornar extemporâneo ou precário. Mas a cultura é mesmo este monte de ruídos, de entulhos, dos quais apenas alguns são audíveis, perduráveis. Na falta de Shakespeare, nós temos ainda o poema do futuro. E a chance de marcar pontos no jogo.
Como era mesmo o nome dos amigos de Batatinha?
21/01/09 às 22:15
Bem,
ainda que secretamente tenhas posto uma certa ordem no caos desse teu blog, eu ainda não pus ordem alguma no caos que é a minha cabeça.
E entre Tolstoi, Proust, Kerouac e o teu blog, eu confesso que se me prometeres postar a cada 10 dias, ficarei aqui contigo, exercitando uma ordem secreta no caos e no meu mundo.
Falar em caos, o lixo no topo da pirâmide é um caos e uma ameaça à base que, mesmo assistindo a BBB_steira ‘global’, acaba sendo soterrada não apenas pela BBB_bosta daquele lixo ‘global’ mas pelo lixo do lixo cultural que o topo também derrama sobre as casas e as nossas cabeças.
Agora tem mais coisa que eu quero dizer sobre este texto.
Mas como eu sei que vais demorar a postar um outro e também sei que irei voltar e te perturbar, vou deixar um pouco de bobagem prá outro dia.
Beijos, Heron.
Gosto muito de te ler.
Aprendo muito contigo. De verdade.
Ah! A turma do manda chuva…
Deixa ver se lembro….
Depois te digo.
Pergunta difícil essa hora, é covardia.
Se tiveres tempo vai lá no ‘inspirar-poesia’ hoje, também postei um texto sobre um lixo que saiu do ar.
Coincidência ou afinidade?
22/01/09 às 20:43
A ordem secreta do mundo …não não é mais esse agora é a turma do manda chuva…
Já sabias que eu voltaria então, não é surpresa.
Diálogos impertinentes da net. Uma psicóloga ‘louca’ também nada de novo. Menos novo do que eu ou tu, é a turma do manda chuva…
Lembrei da montoeira de gato que aquela coisa…
tinha um que era nordestino - sotaque de conterrâneo, o xuxu era um ‘mané’.
Tinha um meio … sei lá qual era a opção sexual daquele gato… mas ele era estranho…parecia francês, meio ‘baitola’
metido a ‘mauricinho’…
batatinha já falaste.
Tinha um CDF com cara de retardado que usava um relógio acho que era o Gênio. que tinha QI abaixo de 5…
E o grandão que era o maior 171… era igual ao manda-chuva…
esse não lembro.
Depois eu volto.
Abraços
queria ser sofisticado mas ‘era’