História da Literatura Ocidental: uma entrada para o labirinto.
6/09/08História da Literatura Ocidental: uma entrada para o labirinto.
Heron Moura
A coleção História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux, está sendo relançada pela Editora do Senado Federal. Se puderem, comprem a coleção, é uma obra valiosa. Eu mesmo não vou comprar, um pouco porque estou sem dinheiro, mas principalmente porque sou apegado à edição que eu tenho dessa obra. É uma publicação da Editora Alhambra, de 1981, em oito volumes, com uma capa cinza muito feia, mas é a edição que já manuseei muitas vezes, e que não vejo necessidade de aposentar, substituindo por uma nova.
Mas se você não tem a coleção, encomende ao Senado. É uma história de toda a literatura ocidental, de uma erudição impressionante, mas que vai além do mero saber acumulado. Há muitas intuições preciosas sobre os mais diferentes autores.
Carpeaux foi um brasileiro de adoção. Nascido na Áustria, migrou para nosso país e aqui fincou raízes, exercendo um papel intelectual importante no Rio de Janeiro, quando essa cidade estava no seu apogeu cultural, nas décadas de 40 até 60, do século passado.
A obra de Carpeaux sempre me chamou a atenção por ser uma espécie de anti-cânone. Ele arrola e comenta as obras dos mais diversos autores, de diferentes países, alguns inesperados, como Hungria ou Bulgária. A sensação que tenho ao ler trechos dessa obra notável é que a literatura é um enorme museu, um labirinto de salas e corredores, apinhados de autores anônimos e desconhecidos, bichos estranhos e exóticos. Para um autor lembrado, há dezenas de esquecidos. Autores que eram verdadeiras estrelas em um período, tornam-se papel velho nas gerações seguintes. Um caso extraordinário é o de Lord Byron. Poeta famosíssimo no início do Séc. XIX, hoje não é lido nem mesmo na universidade, que já lê bem pouca coisa. Byron era uma celebridade. Sua vida era acompanhada e comentada por toda a Europa. Uma vez estava ele hospedado numa casa no lago de Genebra, na Suíça, onde recebia o também famoso poeta inglês Shelley, e ali conversavam e velejavam no lago (curiosamente, os dois morreriam afogados, alguns anos depois). Pois bem, a notícia de que os poetas estavam em Genebra se espalhou e muitos curiosos e turistas alugavam barcos só para dar uma espiada na vida supostamente escandalosa que os poetas levavam, com orgias e farras (a fama de Byron era péssima). De longe, os lençóis dos poetas no varal pareciam roupas íntimas de mulheres, o que só aumentava o burburinho. Se houvesse uma revista Caras na época, certamente os poetas seriam fotografados. Na verdade, Shelley estava acompanhado de sua segunda mulher, Mary Shelley, autora de Frankenstein (1918), e Byron recebia a visita de uma namorada. De dia, velejavam, de noite falavam de literatura e idealismo.
Essa anedota, que não consta da obra de Carpeaux, mostra bem o espírito museológico de sua empreitada. Quem imaginaria que houve um tempo em que poetas eram celebridades?
De toda forma, Byron e Shelley são ainda conhecidos, e o segundo é sem dúvida um grande poeta. No entanto, a obra de Carpeaux se espraia por autores que não dá nem para imaginar que tenham existido. Logo depois de se dedicar a Shelley, Carpeaux volta os olhos para Almquist, “um sueco genial”, “estudante pobre, camponês improvisado, professor indisciplinado, jornalista suspeito, pastor militar de opiniões e conduta duvidosas”. Adepto de “uma teosofia confusa”, em seus romances chegou a esboçar “um socialismo pré-marxista”! Suspeito de ter assassinado o agiota a quem devia dinheiro, fugiu para os Estados Unidos. Escreveu dezenas de livros, dos quais com toda a certeza eu não vou ler nenhum! E precisa? A descrição de Carpeaux já vale por si, e cria um personagem, antes de revelar um autor. Justamente, podemos ler toda a História da Literatura Ocidental como um grande romance, no qual os personagens são inumeráveis autores, cujas vidas e obras se mesclam num roteiro de sonho que é difícil de esquecer e desvendar.
Uma outra característica interessante do trabalho de Carpeaux é que, como eu disse, ele cria um anti-cânone. É o oposto do que faz contemporaneamente o crítico norte-americano Harold Bloom, de quem aliás eu gosto, mas que tem a mania esquisita de dizer quem merece ser lido e quem merece ser esquecido, como se houvesse uma escala do esquecimento, tal como existe uma escala da temperatura. Obviamente, Bloom erra muitas vezes, pois quem ele acha que faz parte do cânone pode não entrar na memória dos outros. Por exemplo, no seu livro Genius, Bloom coloca Edith Warton como um dos maiores gênios de toda a literatura ocidental, o que parece uma escolha paroquial e muito discutível.
Carpeaux não comete esse erro. Ele adota uma visão holística, quase caudalosa da literatura. Na onda literária, vem muito lixo, mas é melhor adotar uma postura estóica e arquivar tudo no grande museu do esquecimento.
Isso não implica que ele assuma uma postura relativista, de acordo com a qual toda obra literária reflete um certo valor contextual e cultural. De jeito nenhum; ele julga os autores com paixão, diz quem vale alguma coisa e quem não vale nada, mas ele lê e comenta todos, desde que minimamente relevantes numa dada tradição cultural. Carpeaux era um ativista cultural, divulgando, selecionando e julgando a massa literária produzida no Ocidente. Podia cometer erros de julgamento, é claro, mas a sua perspicácia e saber literários são impressionantes. Pegue qualquer autor importante e leia o que Carpeaux disse sobre ele. Haverá sempre uma observação precisa e uma intuição notável. Por exemplo, sobre o poeta inglês John Keats (1795-1821): “Era um grego, não como os gregos eram, mas como eram imaginados”; ou a observação de que Keats, romântico, chegou ao classicismo não através dos gregos, mas sim através da poesia elisabetana, de Shakespeare. Uma coisa muito parecida, aliás, é dita por Harold Bloom no livro já citado, o que mostra que Carpeaux tinha intuições ainda muito atuais.
Carpeaux está sendo esquecido, como esquecidas foram legiões de seus personagens – os autores, ficcionistas e poetas. O museólogo está entrando para o museu. Espero que a edição dessa obra pelo Senado possa ainda nos fazer lembrar do guia da visita ao labirinto da literatura ocidental.