Um punhado de medo
13/05/08Um punhado de medo
Heron Moura
Em uma de suas crônicas para a Folha de São Paulo, Ferreira Gullar transcreveu versos de vários poetas. Um deles me chamou particularmente a atenção; na verdade, fiquei quase chocado pela certeza que ele transmite e pela pungência que carrega: Eu te mostrarei o medo num punhado de pó (T. S. Eliot). A questão é: por que e como esse verso isolado pode chocar, assim isolado? Como se entrevíssemos uma cena desconectada de um felino erguendo a pata, mas para quê? Para o golpe, a carícia, a fuga?
Como pode uma frase deslocada de seu contexto abarcar tanto conteúdo? Não se trata da enunciação de uma verdade, de um saber acumulado e sintético. É uma ameaça, ou um aviso. Uma primeira explicação é que um fragmento pode conter tanta verdade quanto a que há no mundo. O fragmento seria o monumento. Haveria uma conexão direta entre a forma da frase e uma realidade oculta, não revelável por outras palavras que não sejam essas, que ligam o medo e o pó. As palavras nos comunicam uma coisa que não sabemos discernir.
Essa explicação tem raízes muito fundas na cultura ocidental. É a visão órfica ou cabalística da linguagem. Os poemas, nessa visão, seriam fragmentos verbais retirados do pó, os quais revelam em sua forma um saber que só se exprime através desses fósseis da linguagem, como o tecido vivo de um molusco ancestral só pode ser entrevisto na concha calcária que o preservou ao longo dos séculos. No caso, o molusco é uma verdade inefável que não pode ser captada pela língua imperfeita do dia-a-dia, língua de saliva e erro, mas que pode ser enunciada, de forma secreta, pelas sílabas do poema. Porque o poema seria uma forma verdadeira em si mesma, distante do mundo, com as ranhuras daquele tecido vivo que nunca veremos, a essência esponjosa do molusco.
Essa é a visão do poema como experiência cabalística. Os cabalistas acreditavam que manipulando as letras do nome de Deus (o tetragrama YHVH, em hebraico), seria possível encontrar as 72 propriedades secretas da divindade (o número 72 é obtido pela soma das letras do tetragrama, pois em hebraico cada letra representa um número). O verso Eu te mostrarei o medo num punhado de pó seria então uma manipulação de propriedades secretas dessas palavras, a ligação implausível entre um punhado de medo e pó, um oráculo do alfabeto.
Essa explicação pode parecer excessivamente mística, mas é paradoxalmente aceita de bom grado na modernidade, pois o poema moderno é visto como um tabuleiro de letras e de sons, não como um conjunto de frases extraídas da língua usual.
Eu não consigo aceitar essa explicação, simplesmente porque não consigo imaginar nenhum molusco secreto escondido na frase. O verso fala de medo encontrado no pó, e esse medo é o que sentimos diante de um felino com a pata erguida, e o pó é o mesmo pó da calçada em que andamos. O fragmento órfico e cabalístico nos leva a sonhar, mas nos deixa cegos para a realidade palpável do poema.
Uma segunda explicação é que seria possível entrever, no fragmento, uma rede de frases e associações que dão sentido à ameaça do verso. Há um halo bíblico no verso, e isso daria conteúdo à cadência e ao ritmo. O pó evocaria a humilhação e a submissão diante da divindade, o medo seria reflexo de nossa condição mortal. Se sabemos que Eliot é um poeta cristão, essa explicação ganha força: lemos o verso contra esse fundo ideológico de uma crença e uma ortodoxia. Aliás, o próprio Eliot, como crítico, formulou a teoria do correlato objetivo do poema. Segundo essa teoria, o poema é subjetivo, mas ganha força situado num conjunto objetivo e coletivo de crenças e aspirações, que são o correlato em prosa das intuições em verso.
Essa explicação digamos contextual do poema me parece mais rica que o sonho cabalístico, mas não creio que resolva sequer metade do problema. Ok, podemos traduzir o verso citado em termos cristãos de medo diante da morte e do pó ao qual voltaremos, mas isso não explica a pungência que há nessa associação direta, inesperada, mostrada, entre o medo sentido e o pó que o contém. É como se alguém estivesse nos dando uma informação inteiramente nova, ou usando uma palavra criada para aquela circunstância.
Bem, acho que isso pode resolver talvez um pouco mais da metade do problema, ou ao menos parte da minha inquietação em relação a ele. Imagine que no dia-a-dia as pessoas, aqui e ali, tentam emplacar novas palavras e novas formas de exprimir coisas que lhes parecem surpreendentes ou chocantes. Mas ocorre nesse caso o mesmo que sucede com as mutações genéticas: algumas são bem sucedidas e repassadas aos genes dos descendentes, muitas se perdem nos caminhos do tempo. Morrem depois de surgirem. O mesmo acontece com palavras novas e formas de dizer inesperadas. A maioria entra por um ouvido e sai pelo outro. Mas eis o mistério: algumas palavras criadas ficam, algumas expressões colam em nossas mentes. Não sabemos talvez explicar por que, mas elas ressoam dentro de nós mesmos. O verso é isso: essa palavra que adere à nossa mente, que vibra dentro dela.
O verso de Eliot liga, de forma inesperada, o medo e o pó que o provoca. Como pode isso, já que não há coisa mais inofensiva que o pó (com exceção dos alérgicos)? Mas o verso torna quase tangível esse medo, quase podemos tocá-lo, mostrá-lo entre os dedos. Percebemos por alguns segundos na nossa mente não o medo (esse companheiro de todos os dias), não o pó corriqueiro, mas a junção e a metamorfose dos dois, um punhado de medo é o que vemos agora. O medo ali onde não deveria estar, o máximo de tensão num mínimo de espaço tensionado.
É uma ilusão, bem sabemos. Esse eu do poema não tem nada a mostrar. Ele nos ameaça com palavras, não com um veneno secreto ou com uma pata de felino. Nossa mente capta a ameaça, como uma corda jogada diante de nossos pés é interpretada como sendo uma cobra, nossa mente se sobressalta diante da elipse e absorve o choque, desfaz a ilusão de alguns segundos, mas a nova palavra agora está lá, isolada e cotidiana.
Duas coisas mais. Esse verso é uma tradução, claro. Como o mesmo choque é transmitido em outra língua? Transfiguração cabalística, diriam os místicos da modernidade. Acho que apenas o bom trabalho do tradutor: a repetição das consoantes iniciais (mostrarei/medo e punhado/pó) nos incutem o mesmo medo que as elipses da corda e da cobra.
Finalmente, não sei de que poema foi retirado esse verso. Vocês sabem? Não fui procurar. Normalmente, acho que versos isolados sentem falta de ar, precisam da atmosfera do poema. Mas esse verso Eu te mostrarei o medo num punhado de pó, confesso, me parece melhor assim, isolado e asfixiado, sem aquela ideologia pesada de Eliot, significando em si mesmo tanto o medo diante da morte, quanto o medo diante de um minúsculo molusco agora transfigurado em um fóssil de milênios.